sexta-feira, janeiro 26, 2007

carcereu

Ilustre inquilino no cárcere de si mesmo. Perdeu as chaves da boca pra fora... perdeu-se da boca pra dentro... encarou o forro das pálpebras como a um eloqüente interlocutor, por monólogos em via de mão dupla, tráfego intenso em linha contínua. O teso travar dos dentes, como um alicerce mental, fincou os pés de sua consciência enquanto o furacão de cenas reprisadas passa... passa.. passa.. passa... como se não bastasse apenas já terem sido, queriam ser novos, releituras genéricas pelo puro prazer de uma análise quente rápida fria mórbida - do avesso se se pudessem - só para tomarem nota do que poderiam ter sido... e não foram, nunca foram, não serão... mas disso não querem saber. Qualquer que seja a hora, seu hipotético síndico acha que já se foi, mas que se fosse outra, talvez mais cedo, ou talvez mais tarde, seria a certa. O forro da vista agora é cinza, 03:17 reluz em vermelho sangue, borrado como chuva em vidro quente, lembra-o que amanhã já é e o tempo tem seu monólogo próprio.. Procura outra coberta, amassa mais o travesseiro, aninhando-se como se a parede fosse uma esponja para as despertadoras rajadas de pensamento na esperança de que o outono do sono passe, e as folhas de descanso regressem do cárcere de si mesmas.. cárseure.

desse lado o colchão é muito mole. desse ficou duro. bendita dor nessa orelha. de onde vem tanta claridade? preciso de uma coberta maior, das que cobrem a cabeça. talvez um travesseiro mais alto, maldita dor no pescoço. essa fronha que me arranha. onde deixei o copo d'água? relógio barulhento.. já passou das três.. liguei o despertador? mais meia hora, que seja, pela demora do sono.. ai? o que é isso aqui.. melhor se não tivesse os braços. maldita cama estreita.. se chover amanhã como faço.. ela ou ele.. hoje? bicicleta verde, árvore ônibus relógio
sono
lençol
ivro
gua
nela
reira
braz
inco
ris
sr
z
z
z
z.